segunda-feira, março 20, 2006
Pelo direito à... imbecilidade

Em situações normais nunca leio e-mails que tenham na linha de título a indicação de “Forward” (Fwd:). Usualmente são mensagens de conteúdo duvidoso, piadas grosseiras, boçalidades e embustes. Enviei mesmo uma mensagem a todos os contactos da minha lista de endereços a pedir que não me enviassem mais correio desse género porque eu, simplesmente, ia apagar sem ler ou ver ou ouvir.

Como raramente prestam atenção ao que eu digo, continuaram a mandar-me os ditos forwards. Vi-me forçado a tomar medidas drásticas. Escrevi uma segunda “circular” a explicar, entre insultos mais ou menos agressivos, que não queria ler mais anedotas do estúpido do “Manelinho” a encontrar mensagens sexuais subliminares em tudo o que a professora dizia. Que não tinha pachorra para testes de personalidade e para questionários idiotas do tipo “responde a estas 300 perguntas e descobre que raça de cão serias… se fosses cão”. Que não sentia qualquer apelo solidário para ajudar a comprar uma cadeira de rodas para o pobre do jovem deficiente que tem uma mãe alcoólica e um pai travesti e uma irmã esquizofrénica que, por acaso, também precisa de um transplante de medula. Que me estava a marimbar para a pequena Kátia Michaela de cinco anos que desapareceu, há sete, de casa dos pais que agora são dois uma vez que a mãe decidiu mudar de sexo no ano passado – que foi há dois anos – porque, enquanto mulher, se sentia impotente para levar a cabo a demanda de encontrar o bebé. Que não queria assinar mais “abaixo-assinados” para enviar à UNICEF, à UNESCO, à OMS, à ONU, à FIFA, à UEFA, ao Governo Regional da Tasmânia, ao Ministério que tutela as Berlengas e os Farilhões… porque, no fim de contas, eu não passava de um sacaninha cínico indiferente aos problemas do resto do mundo.

Isto não resultou totalmente, mas diminuiu drasticamente a quantidade de forwards e o ritmo a que eles entravam na minha caixa de correio. De vez em quando, lá vem mais um. E o destino certo de 99 por cento deles é irem directamente para o lixo. E digo 99 por cento porque, de vez em quando, lá clico em cima de um só para ver “o que é que foi desta vez…”

Ora, hoje foi um desses dias.

O título era: “Fwd:Fwd:Fwd: …Pelo direito à indignação”. Assim designado pela amiga de uma conhecida de um familiar de outra amiga de um amigo de um antigo colega meu. Tratava-se de um ficheiro em “pdf” (Adobe Acrobat) que legendava uma das célebres caricaturas do profeta Maomé – aquela da bomba no turbante – com o seguinte “Não sei o que de tão ofensivo tem isto para tanta indignação por parte dos muçulmanos!”. De seguida, uma outra legenda encabeçava a célebre caricatura de João Paulo II com o preservativo no nariz: “Também não vejo, como católica que sou, o que de tão ofensivo tem isto”.

E depois vem o melhor: uma sequência de seis fotografias, tiradas algures no Irão, em que um homem segura o braço de uma criança no chão para um veículo – que parece ser uma pick-up – lhe passar com o pneu por cima, alegadamente, como castigo por o miúdo ter roubado um pão. O texto termina com uma tirada tão notável quanto originalmente sincera: “Isto sim é que devia indignar toda a gente, independentemente da sua religião!”.

Ora bem. Aquilo, apesar do paternalismo saloio do autor da mensagem, tocou-me. Como, penso, tocaria a qualquer ser humano com o mínimo de amor ao próximo e às suspensões dos automóveis em países de terceiro mundo. Mas, havia qualquer coisa que não batia certo nas fotos... Vai daí e atiro-me de imediato ao Google à procura do fotógrafo cujo nome está inscrito nas fotos: Siamak Yari. E que descubro eu?... Que as fotos são verdadeiras, mas que o seu contexto foi completamente subvertido!

Afinal, o miúdo não está a ser castigado. Afinal, aquilo é um número “circense” para animar as hostes reunidas numa praceta de uma cidade iraniana que tentam divertir-se um bocado enquanto esperam pela iminente e inevitável invasão “dos Aliados”. Afinal, o miúdo nem um arranhão teve. Afinal, ao que parece, é um truque qualquer – ao estilo daquele tão vulgar nos palcos ocidentais em que serram uma mulher ao meio. Afinal, vós – todos os que reencaminharam o e-mail não sei quantas vezes até chegar à minha pessoa – é que sois uns autênticos bárbaros. E uns imbecis. Porque só um imbecil acredita em tudo o que lhe dizem sem uma confirmação. Porque só um imbecil se atreve a julgar um povo pelos actos documentados de um indivíduo, ainda que esses actos tenham, verdadeiramente, ocorrido – o que não é o caso. Porque só um tremendo imbecil acredita que o destinatário da mensagem é outro imbecil que a vai aceitar sem a confirmar.

Posto isto, e como quero colocar um ponto final nesta onda de imbecilidade, aqui ficam os links para dois sítios (Snopes, HoaxBuster) onde a sequência de fotos é explicada. E se não ficarem convencidos, ainda deixei mais links no post do "Geração". Vão lá ver. Não acreditem só na minha palavra. NÃO SEJAM IMBECIS!

posted by Raimundo @ segunda-feira, março 20, 2006  
4 Obscenidades evitáveis:
  • At 21 março, 2006 12:03, Blogger Woman Once a Bird said…

    Labrega me confesso, no final desta viagem que se iniciou no Geração Rasca.
    quanto à porcaria dos fwds, no meu caso funcionou ignorá-los. Recebia-os, mas não os passava a nniguém. Como não retribuía a gentileza, a maior parte do pessoal amuou e deixou de enviar. Alguns, não todos...

     
  • At 21 março, 2006 12:26, Anonymous pH said…

    ahahaha, excelente!
    Eu tive uma situação semelhante, mas mais modesta: era um pedido de envio de filmes para um hospital português, em vhs e ou dvd, para q os doentes tivessem um entertenimento, mas uma googlada rápida demonstrou que o dito hospital já tinha filmes a mais, e q pedia q não fossem enviados mais filmes!

    ah, "serrar", com uma serra, é com "s". :)

     
  • At 21 março, 2006 13:25, Blogger Raimundo said…

    É pá... tens razão. Já devia ser muito tarde quando escrevi o texto! De qualquer modo, já vou alterar.

     
  • At 24 março, 2006 12:01, Blogger Eric Blair said…

    Pá, antes de mais: Contra as postas longas lutar lutar!
    Quanto ao resto, se não mandares tretas não recebes tretas. Acredita que funciona.
    Hasta

     
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