terça-feira, fevereiro 07, 2006
Shame on you... Mr. Amaral!
Há princípios pelos quais vale a pena lutar. Bater o pé. Fazer birrinha se for preciso. Eu prezo imenso a liberdade que tenho de dizer o que quero. De me expressar da forma que bem entender. Mesmo com a consciência prévia que posso chocar alguém. Quem se sentir ofendido que recorra a um tribunal que é para isso que eles existem. Esta liberdade exerci-a, com mais ou menos responsabilidade, ao longo da vida sem ter que me preocupar com as eventuais repercussões. Porque o meu pai como o de muitos outros, saiu para a rua num dia de Abril nos anos 70 e disse "BASTA" a um regime que proibia essa mesma liberdade de expressão.

E agora vêm uns iluminados, ao abrigo da liberdade de culto religioso, tentar privar-me dessa liberdade porque uns fundamentalistas se sentiram ofendidos por uma dúzia de caricaturas de uma personagem sagrada. Meus caros… na nossa sociedade religião nenhuma é mais sagrada do que a liberdade de expressão. Por tal, também o mundo ocidental se pode sentir ofendido nas suas mais profundas convicções, pela existência de uma religião que não tolera essa liberdade. Mas não vêem dinamarqueses a queimar turbantes. Ou exemplares do Corão. Nem invasões às embaixadas do Irão em Copenhaga. Ou em outra capital europeia qualquer. Porquê? Talvez porque o Mundo Ocidental já convive com esta liberdade há tanto tempo que já se habituou a respeitá-la. Porque no Mundo Ocidental não há, como não deve haver, em circunstância alguma, em lugar algum do mundo, pessoas, instituições – políticas, civis ou religiosas – ou crenças, acima de qualquer suspeita e, sobretudo, acima da crítica – seja esta justa ou não – sob pena de não nos desenvolver-mos enquanto seres humanos.

A Idade Média, período durante o qual o fundamentalismo religioso vigorou da Europa Ocidental ao Oriente Médio, e onde a liberdade de expressão era queimada em fogueiras, metida em galés, torturada com os mais diabólicos engenhos alguma vez criados, foi o período da História em que mais gente morreu estúpida e desnecessariamente. Pior que isso, ainda, foi o retrocesso no campo da cultura e da ciência. Deus – o nosso (salvo seja) e o dos outros – eram a razão da existência e exigiam novas conquistas territoriais. Não se contentavam com adoração, queriam subjugação. E desperdiçaram-se séculos de investigação científica. E perderam-se centenas de escritores e poetas e pintores e escultores. Porque nenhuma expressão era aceite além daquela que transmitisse a mensagem de Deus.

Ceder às exigências islâmicas de pedidos de desculpa e de limitação da liberdade de expressão – ainda para mais pelos motivos que se sabe – é um retrocesso no processo de maturação das democracias ocidentais. É um passo atrás em direcção à Idade Média. É um erro que poderá custar caro a curto prazo. É que se cedemos agora, mais tarde ou mais cedo, o Vaticano irá exigir que se acabem com as caricaturas ao papa. Que não se ponham a ridículo os dogmas cristãos. E como quem se deixa “pisar uma vez, se deixa pisar outra vez”, não tarda e começamos a ter leis de decoro. Primeiro a proibir tudo o que possa ferir a susceptibilidade de alguém, depois a proibir mini-saias, decotes, bikinis – coisa que até pode ficar imediatamente resolvida com a obrigatoriedade do uso da Burka. Acabarão as anedotas sobre alentejanos e os bailes da aldeia serão animados por uma banda rock porque os conjuntos pimba serão banidos juntamente com a boçalidade gratuita.

Por isso, é com profundo desagrado que leio as notícias que dão conta das últimas declarações do nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros que, em vez de defender a Liberdade que tanto gosta de afirmar que ajudou a conquistar, se coloca do lado das “virgens ofendidas”, supostamente indignadas, que nos seus países promovem uma sociedade intolerante, chauvinista, fundamentalista e bélica, mantendo-a numa espécie de Idade Média.

É a esta gente, sr. Freitas do Amaral, que temos que pedir desculpa? É por estes valores que temos de abdicar dos nossos? Vá-se foder* e tenha vergonha na puta da cara!

* - Num país islâmico, eu seria apedrejado até à morte, atado a uma pick-up e arrastado pelas ruas e, por fim, pendurado pelo pescoço à entrada da cidade com um cartaz improvisado a dizer “inimigo do regime”. Felizmente vivo num país onde há liberdade de expressão e não tenho que me preocupar muito por mandar foder um ministro!

posted by Raimundo @ terça-feira, fevereiro 07, 2006  
12 Obscenidades evitáveis:
  • At 08 fevereiro, 2006 13:13, Anonymous V.Samotrácia said…

    concordo inteiramente! mas estas merdas de declarações universaissó representam um medo escondido debaixo da mesa com o cú de fora, e que agora é demonstrado! "vamos é lamber as botas aos mulcumanos ñ venham eles explodir com o futuro aeroporto da OTA ou talvez com as linhas do TGV, quem sabe"! será que ytemos nós de fazer uma "intifada" para mostrar que nada é tão sagrado que não possa servir de humor em cartoons? porque tem uam europa cristã de respeitar outra religião, quando não existe reciprocidade? esses cartoons foram feitos de forma intensa e provocadora, sem sombra de dúvidas, mas ta,bém são um sinal de extrema inteligência! KEEP ON THE G(O)OD WORK! PARA A FRENTE MONTY PYTHON e tudo o que se asemelhe!! e mai nada! FREEDOM!!

     
  • At 08 fevereiro, 2006 14:03, Blogger marcox said…

    vá lá, vá lá, nem é muito mau viver em Portugal!

     
  • At 08 fevereiro, 2006 16:49, Blogger post_it said…

    Há já algum tempo que medito sobre esta questão e gostava de ter tantas certezas quanto vocês! Têm muito bem delineado nas vossas cabeças o que baliza a liberdade de expressão. O que me parece óptimo! Para vocês a liberdade de imprensa é assim tão matemática? Conseguem-na definir para todos, universalmente, como uma regra da física?
    Ainda não analisei bem o que se tem dito por aí, quem disse o quê, como reagiram alguns crentes do islamismo, os opinion-makers do mundo ocidental, oriental, do norte ou do sul... Mas não consigo deixar de pensar porque tem de ser a nossa vontade (do mundo ocidental) o espelho da humanidade?
    Não estou a concordar com o banzé todod que se criou! Caramba, estou é a dizer que se esta gente não tem representações corpóreas de Maomé porque haverão os não-muçulmanos de as criar?
    Creio que a melhor medida é abrirmos bem os olhos e filtrar a informação que nos chega dos órgãos de comunicação... é que se não o fizermos eles fazem por nós!
    O melhor mesmo é continuarmos a discutir a liberdade de imprensa!
    Quem é o primeiro?

     
  • At 08 fevereiro, 2006 18:20, Anonymous ph said…

    post_it, o islamismo, por definição, não é tolerante. Não é respeitador das liberdades e garantias dos não-muçulmandos. Coloca um fosso abismal entre homens e mulheres muçulmanas, a nível de direitos e qualidade de vida. Até os regimes islâmicos mais suaves afrontam, uma e outra vez, a carta universal dos direitos humanos.
    A questão não é ocidente vs. (médio) oriente. A questão é direitos humanos vs. intolerÂncia.

    Se um grupo de pessoas só sabe responder ao que não gosta através de guerras, atentados, assassinatos, intifadas, fatwas, e o raio q os parta... que posição tomas tu em relação e essas pessoas?

    A mim irrita-me pessoalmente a benevolência e o paternalismo com que a esquerda europeia* trata os muçulmanos, coitadinhos. A Europa fez muuuuuuuuuuuuuita merda no passado, em relação aos países árabes. E continua a fazer. Acontece é que eu não vou condenar um erro apoiando outro, isto é, tanto acho errado os erros dos ocidentais como dos muçulmanos.

    E sim, qualquer atropelo à liberdade de expressão (excluindo, por definição, a difamação e propagação de falsas informações) tem que ser combatido. Venha de onde vier. Se for então de ditaduras, mais ainda!

    pH

    Sugiro o livro "Why I Am not a Muslim", à venda aqui > http://www.amazon.com/gp/product/1591020115/sr=1-1/qid=1139422598/ref=pd_bbs_1/104-5483699-5064712?%5Fencoding=UTF8

    os comentários presentes na página são muito interessantes.

    * sou simpatizante das ideias anarquistas (para lá de esquerda ou direita, portanto) e não te estou directamente a enfilar em nenhum sector político.

     
  • At 08 fevereiro, 2006 18:21, Anonymous pH said…

    uhm, o link não dá bem....
    tenta este

     
  • At 08 fevereiro, 2006 18:35, Anonymous pH said…

    Para quem estiver interessado, estão vários livros (em inglês) à disposição na net sobre os nazis, a sua manutenção pós-2ª guerra mundial e sobretudo "Cairus to Damascus", o livro que fala sobre o fascinio muçulmano pelo fascismo, que levou à criação da Muslim Brotherhood, um grupo altamente influente e poderoso, muçulmano E fascista, que levou à criação posterior do Hamas, da intifada palestiniana e do que se conheçe como Al-Qaeda.

    É bom que a esquerda em geral saiba q a Palestina, vítima, é certo, da brutalidade e crimes israelitas, é comandada por fascistas. Que querem acabar com isso dos direitos humanos (e com os judeus, já agora).

    Os livros estão aqui, sendo que o Cairus to Damascus é o quarto da lista. Recomendo a leitura da descrição do livro, q está aqui

    pH

     
  • At 09 fevereiro, 2006 11:21, Blogger post_it said…

    Hello ph!
    Não apoio de forma alguma qualquer atropelo aos direitos humanos, ao direito à individualidade e à crença de cada um. Por isso mesmo não posso deixar de pensar nos muçulmanos que conheço e que não respondem a "ataques ocidentais" com "guerras, atentados, assassinatos, intifadas, fatwas, e o raio q os parta". É destes que estou a falar.
    Não posso concordar com correntes e regimes islâmicos para quem a frase "respeito pela diferença" nada quer dizer! Mas acho muito perigoso generalizarmos, colocando todos no mesmo saco.
    Esta minha posição vem do trabalho que estou a fazer à dois anos junto de comunidades minoriatárias e imigrantes em Portugal. Por isso vejo o outro lado, as outras pessoas que não "profetam do mesmo Deus extremista" daqueles que vemos todos os dias nos jornais.
    Vou ler com muita atenção as tuas sugestões. Acho que é imporatnte irmos além do que nos querem dar como a verdade.
    Never the less, continuo a achar que o mundo ocidental tem um umbigo enorme! Ir ao oriente (Pequim, Hong Kong e Macau) deixou-me a pensar muito neste tema da universalidade... Mas como ainda estou a pensar nele, falaremos disto noutra altura!
    beijinhos, post_it

     
  • At 09 fevereiro, 2006 12:00, Anonymous Anónimo said…

    o engraçado é que há bem poucos dias recebi um mail com um link para um museu que disponibilizava, on-line, fotos de estátuas e pinturas de Maomé, algumas delas com centenas de anos. vou tentar procurar no Algarve e, calhando, ainda encontro algumas...

     
  • At 09 fevereiro, 2006 12:03, Anonymous Anónimo said…

    quanto ao freitas (em letras pequenininhas porque o que fez merece apenas uma ironia à lá pinto da costa), é inadmissível, mas lembremo-nos das suas origens...

    sexycowsinbikini

     
  • At 09 fevereiro, 2006 13:51, Anonymous pH said…

    Hello post_it!
    Pois é, generalizações são uma parvoíce, e obviamente há sempre "boa" e "má" gente em todo os grupos humanos. O meu problema - seja neste caso, seja em muitos outros - não é o antónio e a maria (ou o sahid y a... olha como eu sou ignorante, nem sei nomes femininos tipicamente árabes!), mas sim aqueles que controlam o poder e levam as pessoas em cantigas perigosas. Sejam Berlusconis ou Bin Ladens, sejam Bushes ou Husseins.

    A questão para mim não é ocidente vs. oriente. É direitos humanos vs. desconsideração pelo outro. Venha de onde vier. :)

     
  • At 09 fevereiro, 2006 16:30, Anonymous Pulquéria said…

    A propósito do comunicado de Freitas do Amaral, emitido em nome de "Portugal":

    "Estamo-nos a agachar. E de tanto nos agacharmos podemos acabar ajoelhados".
    Miguel Sousa Tavares

     
  • At 13 fevereiro, 2006 01:47, Blogger Rui deOliveira said…

    Se mais não fosse, este assunto colocou dois ideais em cima da mesa. De um lado a religião e dou outro a liberdade de expressão. Tem piada ver como os políticos não sabem bem para onde se virar, ficam naquela situação do "pois, isto é um bocado chato". Têm a perfeita noção que seja qual for o lado para que se virem, vão levar na cabeça.

    Parece-me que é nesta altura que se distingue quem é que tem ou não tomates apoiando frontalmente um ponto do vista. Coisa que muitos jornais não têm, uma vez que se desfazem em desculpas.

    Quanto a mim, liberdade de expressão, sempre.

     
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